O alto preço da falsa beleza
Observação: As histórias apresentadas a seguir são fictícias e têm finalidade exclusivamente educativa e ilustrativa. Embora inspiradas em situações frequentemente observadas na prática clínica e em relatos amplamente divulgados pela mídia e em artigos científicos, elas não correspondem a pacientes reais.

Em 2024, aos 21 anos, Lívia entrou em uma clínica de estética decidida a realizar um preenchimento no nariz. Imaginava que haveria uma conversa detalhada com a profissional escolhida, com orientações cuidadosas e tempo para ela refletir. No entanto, mal havia se acomodado na cadeira ao perceber que o procedimento começaria imediatamente.
“Meu coração acelerou, fiquei muito nervosa. Não era nada parecido com o que eu tinha imaginado”, contou depois. “Parecia um açougue, mulheres sendo atendidas em série”, lembrou. Apesar do desconforto, ela voltou um ano depois para fazer um novo preenchimento. “Gostei do resultado”, explicou, Parecia que finalmente minhas fotos tinham ficado do jeito que eu queria.”
Lábios mais volumosos, nariz discretamente arrebitado, maçãs do rosto marcadas, “fox eyes“, blefaroplastia e uma mandíbula perfeitamente definida. O atual ideal de beleza parece seguir uma fórmula relativamente previsível, a medicina estética oferece recursos para reproduzi-la e a geração mais afetada é a que nasceu após a criação das redes sociais: a geração Z.
A busca pela perfeição desenhada por algoritmos transformou a autenticidade dos traços naturais em rostos padronizados.
Hoje, com apenas 22 anos, Lívia passa horas navegando pelas redes sociais, observando faces aparentemente impecáveis. Sem perceber, compara cada detalhe do próprio rosto com imagens filtradas, editadas e cuidadosamente produzidas. O que muitas vezes permanece invisível é que a busca por pequenas correções pode esconder necessidades emocionais muito mais profundas: o desejo de pertencimento, aceitação e construção da própria identidade.
Lívia representa milhares de jovens que investem tempo, dinheiro e expectativas em procedimentos estéticos mais e mais acessíveis. Nas redes sociais, profissionais e influenciadores divulgam diariamente intervenções capazes de transformar alguém na “melhor versão” de si mesma. A forma com que esses serviços são divulgado leva as pessoas a acreditarem que, supostamente, ao alterar traços do rosto, ela instantaneamente conquistaria tudo o que deseja. Nesse cenário, o aperfeiçoamento deixou de ser exceção para se tornar quase uma exigência tácita.
As plataformas estão cada vez mais centradas na imagem e intensificaram esse fenômeno. Influenciadoras digitais e celebridades passaram a servir como referência estética global, alimentando a ideia de que existe um único tipo de beleza desejável. São os famosos “rosto do Instagram”: um conjunto de características repetidas à exaustão até que diferenças naturais passem a ser percebidas como defeitos.
Entre em contato comigo clicando aqui.
Preenchendo o vazio
A expansão da estética na área da saúde
Dados recentes indicam que adultos jovens constituem uma parcela significativa do público que procura procedimentos minimamente invasivos. O mercado global de procedimentos estéticos, invasivos ou não, segue crescendo exponencialmente, impulsionado principalmente pela busca por resultados rápidos, pouco tempo de recuperação e ampla divulgação nas mídias digitais. Triana et al. (2024).
Segundo a ISAPS (International Society of Aesthetic Plastic Surgery), milhões de procedimentos não cirúrgicos são realizados anualmente ao redor do mundo, incluindo aplicações de toxina botulínica e ácido hialurônico. Entre os mais procurados estão os preenchimentos labiais. As aplicações de toxina botulínica corresponderam a aproximadamente 7,9 milhões de procedimentos, enquanto os preenchimentos com ácido hialurônico alcançaram cerca de 6,3 milhões de procedimentos realizados mundialmente. ISAPS (2025).
Em diferentes países, profissionais relatam mudanças importantes no perfil dos pacientes. Pessoas cada vez mais jovens passaram a procurar tratamentos que antes eram mais comuns entre indivíduos de meia-idade. Rodgers et al. (2024). O objetivo já não é apenas suavizar sinais do envelhecimento, mas aproximar-se de um ideal estético específico. Mandavia et al. (2024).
A possibilidade de modificar o próprio rosto tornou-se parte do repertório contemporâneo. Entretanto, surge uma questão delicada: o que acontece quando a expectativa de resolver todos os problemas da vida está relacionada à imagem refletida no espelho?
O que existe por trás dessa busca?
Pesquisas científicas têm demonstrado uma associação entre o uso frequente de filtros de imagem e uma maior intenção de realizar procedimentos estéticos. Quanto mais uma pessoa se acostuma a visualizar versões editadas de si mesma, maior pode ser o desconforto diante da própria aparência natural. Nascimento et al. (2024).
Revisões sistemáticas também apontam que a forte valorização da estética nas redes sociais está relacionada ao aumento da insatisfação corporal, da ansiedade relacionada à aparência e da comparação social constante. Alguns especialistas sugerem que o conteúdo consumido diariamente pode influenciar significativamente a maneira como as pessoas percebem seus corpos. Nascimento et al. (2024).
Dois sentimentos são observados com frequência em consultórios médicos e psicológicos: vergonha e inveja. Existe a sensação de que, se todos se parecerem, ninguém precisará se sentir inadequado. Atualmente muitos jovens vivem um período prolongado de transição entre a adolescência e a vida adulta. Nesse sentido, o corpo acaba se tornando um território onde ainda parece possível exercer algum controle diante do caos inerente a essa fase. Modificar a aparência pode oferecer uma sensação temporária de domínio em meio às incertezas da vida. Nascimento et al. (2024).
Embora essa observação seja frequentemente associada à adolescência, muitos profissionais percebem que conflitos semelhantes persistem até o final da segunda década de vida.
Quando a preocupação ultrapassa os limites
O Transtorno Dismórfico Corporal (TDC) é uma condição psiquiátrica caracterizada por preocupações intensas e persistentes com supostos defeitos físicos, frequentemente imperceptíveis para outras pessoas. Essas preocupações ocupam muito tempo por dia e podem gerar sofrimento significativo, prejuízo social e busca repetida por procedimentos corretivos. Kalleny; Janis (2024).
Embora a insatisfação com a aparência seja relativamente comum, especialmente durante a adolescência e o início da vida adulta, o TDC representa um quadro clínico específico que merece avaliação especializada. O rosto, por ser a parte mais exposta da nossa identidade, torna-se frequentemente alvo dessas preocupações. Mandavia (2024).
Há relatos consistentes de que muitas pacientes jovens não procuram ajustes sutis, mas transformações expressivas. Silva et al. (2025). Para algumas delas, os procedimentos vão muito além da estética. São quase marcadores de pertencimento social. Mandavia et al. (2024).
Com o avanço tecnológico, algumas clínicas utilizam softwares capazes de mapear o rosto em três dimensões, identificando assimetrias mínimas e simulando possíveis alterações. Entretanto, existe um risco evidente: quando a tecnologia destaca inúmeras possibilidades de melhoria, pode reforçar a percepção de que sempre há algo a ser corrigido. Mandavia et al. (2024).
O que dizem as próprias jovens?
Nas redes sociais, relatos sobre procedimentos estéticos se multiplicam. Camila, influenciadora fictícia, contou ter realizado preenchimento no queixo inspirada na aparência de uma celebridade internacional.”Eu achava que, se tivesse aquele formato de rosto, me sentiria mais bonita”, revelou. Já Marina, criadora de conteúdo no TikTok, descreveu o preenchimento labial como uma experiência transformadora. “Eu passei a me sentir mais confiante para aparecer nas fotos”, disse.
Por outro lado, há também quem fale sobre arrependimento. Beatriz, youtuber fictícia, gravou um vídeo refletindo sobre a dificuldade de aceitar as próprias imperfeições. “Somos extremamente exigentes conosco. Sempre existe a fantasia de que seríamos mais felizes se mudássemos alguma coisa.”
Outra influenciadora, Ana, reconheceu posteriormente que sua busca incessante por intervenções estava relacionada à desafios emocionais, como a baixa autoestima. “Começou com algo pequeno. Depois, parecia que sempre faltava corrigir mais alguma coisa.”
A própria Lívia admite que as mudanças não transformaram sua relação consigo mesma. “Antes eu evitava tirar fotos. Hoje consigo posar com mais tranquilidade. Mas, sinceramente, minha autoestima continua praticamente a mesma.”
Entre em contato comigo clicando aqui.
Uma tendência mundial
Esse fenômeno não está restrito a um país ou cultura específica. O acesso global às redes sociais, aos filtros e às tendências estéticas faz com que jovens de diferentes partes do mundo compartilhem inseguranças semelhantes. Triana, L. et al. (2024).
Muitas mulheres na faixa dos 20 anos atravessam aquilo que alguns autores chamam de crise do quarto de vida: um período marcado por dúvidas sobre identidade, carreira, relacionamentos e pertencimento. Triana, L. et al. (2024). Nesse contexto, modificar a aparência pode oferecer uma sensação temporária de resolução emocional.
Alguns países já começaram a discutir estratégias de proteção. Em determinados locais, recomenda-se que profissionais avaliem cuidadosamente fatores psicológicos antes de indicar procedimentos estéticos, especialmente quando existem sinais de sofrimento emocional importante, perfeccionismo excessivo, autocrítica intensa ou expectativas irreais. Mandavia et al. (2024).
A avaliação e o ACOMPANHAMENTO PSICOLÓGICO no pré, intra e pós-operatório de cirurgia plástica É O GRANDE DIFERENCIAL para a construção de expectativas reais e a conquista da satisfação plena com a própria aparência
A importância de saber dizer “não”
Em resposta a esse cenário, alguns profissionais têm adotado uma postura mais cautelosa. A dermatologista fictícia Dra. Teresa se tornou conhecida entre os colegas por sua firmeza ao estabelecer limites. “Nem todo desejo precisa ser atendido imediatamente”, afirma. “Às vezes, o melhor cuidado é encaminhá-la para acompanhamento psicológico para que ela possa refletir a respeito das suas motivações e construir um caminho alinhado à sua identidade.”
Outros especialistas alertam para a necessidade de avaliar criteriosamente as qualificações dos profissionais e os riscos envolvidos em procedimentos aparentemente simples. Eles também chamam atenção para um aspecto psicológico importante: a internalização do esquema corporal real. Mandavia et al. (2024).
A conscientização a respeito da real imagem corporal é deve ser conquistada antes da realização de qualquer procedimento estético. Isso implica em conseguir olhar-se no espelho e ver o que ele verdadeiramente mostra, e não o que a mente insiste em acreditar ser real.
É importante lembrar que as tendências mudam. Novos procedimentos surgem e ganham popularidade. O ideal estético se transforma continuamente. O que permanece, porém, é a vulnerabilidade humana diante da promessa de que a felicidade pode ser alcançada por meio da correção de imperfeições.
Recentemente, Lívia leu reportagens sobre possíveis complicações associadas a procedimentos estéticos e passou a questionar suas escolhas. Quando perguntaram se isso a impediria de repetir o procedimento, ela permaneceu em silêncio por alguns segundos. “Eu realmente não sei”, respondeu. “Talvez não. Porque, se eu visse meu nariz voltar a ser como era antes, provavelmente ficaria tentada.”
Sua resposta revela uma verdade desconfortável: muitas vezes, a questão central não está no procedimento em si, mas no vazio que tentamos preencher através dele.
Em uma sociedade que transforma aparência em capital social, talvez o maior desafio não seja a modificar a aparência, mas desenvolver recursos internos para sustentar a própria singularidade.
Afinal, autoestima não nasce da eliminação de todas as imperfeições. Ela se constrói, gradualmente, a partir da capacidade de reconhecer valor em quem somos — mesmo quando não correspondemos aos filtros, tendências ou padrões que insistem em nos dizer o contrário.
Aparência é algo importante para você? Então vem tomar um café comigo! Entre em contato clicando aqui.
Referências
INTERNATIONAL SOCIETY OF AESTHETIC PLASTIC SURGERY (ISAPS). ISAPS International Survey on Aesthetic/Cosmetic Procedures Performed in 2024. Mount Royal, NJ: ISAPS, 2025. Disponível em: https://www.isaps.org/media/razfvmsk/isaps-global-survey-2024.pdf. Acesso em: 24 mai. 2026.
KALEENY, Joseph D.; JANIS, Jeffrey E. Body dysmorphic disorder in aesthetic and reconstructive plastic surgery: a systematic review and meta-analysis. Healthcare, Basel, v. 12, n. 13, p. 1333, 2024. DOI: 10.3390/healthcare12131333. Disponível em: https://www.mdpi.com/2227-9032/12/13/1333. Acesso em: 27 mai. 2026.
MANDAVIA, Rishi; D’SOUZA, Hanna; RUPASINGHE, Thiara; CARIATI, Massimiliano; MANDAVIA, Tatiana. An evidence-based pathway for body dysmorphic disorder in facial aesthetics. Facial Plastic Surgery, Stuttgart, v. 40, n. 5, p. 581-590, 2024. DOI: 10.1055/a-2244-1066. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38216141/. Acesso em: 27 jun. 2026.
NASCIMENTO, G. M. S. et al. Avaliação da influência das redes sociais na busca por procedimentos estéticos faciais. Revista Saúde em Foco, Aracaju, v. 11, n. 1, p. 1-11, 2024. Disponível em: https://periodicos.set.edu.br/saude/article/view/12385. Acesso em: 24 mai. 2026.
RODGERS, RF; HEWETT, RC; LAVEWAY, K. Sociocultural pressures and engagement with cosmetic products and procedures in adult women. Body Image, Amsterdã, v. 49, p. 101701, 2024. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/385 . Acesso em: 26 mai. 2026.
SILVA, B. P. de P. et al. Mídias sociais e padrões de beleza: impacto na procura por procedimentos estéticos. Revista Foco, Curitiba, v. 18, n. 2, 2025. Disponível em: https://ojs.focopublicacoes.com.br/foco/article/view/10360. Acesso em: 26 mai. 2026.
TRIANA, L. et al. TTrends in Surgical and Nonsurgical Aesthetic Procedures: A 14-Year Analysis of the International Society of Aesthetic Plastic Surgery-ISAPS. Aesthetic Surgery Journal, Oxford, v. 44, n. 10, p. 1128-1140, 2024. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39103642/ . Acesso em: 16 mai. 2026







