Quarta, 27 Julho 2022 14:27

Atos de serviço | Uma alternativa à solidão

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Atos de serviço | Uma alternativa à solidão
Como se sentir mais feliz fazendo coisas para os outros

Escolhi finalizar essa série de 3 posts a respeito da solidão me aprofundando um pouco mais a respeito dos atos de serviço. Se você ainda não leu os outros posts, clique AQUI para ler o primeiro, e AQUI para ler o segundo.

automat 1963 Edward Hopper

Nighthawks 1942 Edward Hopper

A escolha desse tema não foi aleatória ou por gosto pessoal. Quando falamos a respeito da solidão, falamos essencialmente da falta ou da sensação de falta de conexão. A dor da solidão advém, em grande parte, da percepção de ausência de conexões significativas, tanto para com o outro quanto para consigo.

Isto posto, é válido considerar que o antídoto mais eficaz para a solidão é a construção de relações profundas. E como eu disse anteriormente, nada nos conecta mais a alguém do que atendê-lo em sua vulnerabilidade.

É disso que se tratam os atos de serviço. Conectar-se profundamente com alguém, na medida que eu ofereço a essa pessoa o meu tempo e a minha energia fazendo algo que proporcione a ela experiências e sensações positivas.

Essa é uma estratégia valiosa e com enorme potencial de transformação de vidas e ambientes. A conexão entre ajudador e ajudado tende a dissipar a solidão de ambos.Essa mesma conexão favorece a diminuição da intensidade de condições como depressão e outros transtornos mentais.

A beleza desse processo não para por aí. Ao contrário, se multiplica, retroalimentando um ciclo virtuoso. A satisfação de presenciar o surgimento de um sorriso largo na face antes sofrida é um raro presente destinado apenas aos que se propõem à prática de atos aleatórios de bondade. Ela retroalimenta a sensação de conexão e de vida com propósito. O coração se expande e se fortalece ao ser, simultaneamente, autora e parte, dessa dinâmica delicada e poderosa, capaz de transformar vidas através de pequenos atos.

Me veio a mente uma breve memória pessoal que deixo aqui registrada. Quando na graduação de enfermagem, estudei exaustivamente as produções da psiquiatra Elisabeth Kübler-Ross, principalmente seu célebre livro Sobre a morte e o morrer. Naquele tempo, 2004, ainda não havia disponível o grande trabalho nacional da Dra Ana Claudia Quintana Arantes, intitulado A morte é um dia que vale a pena viver, cuja leitura eu recomendo.

Kübler-Ross trabalhou com pacientes moribundos durante toda a sua vida, lidando dia a dia com suas profundas vulnerabilidades.
Certa vez, ela redigiu: “As pessoas mais bonitas que conhecemos são aquelas que conheceram a derrota, o sofrimento, a luta conhecida, a perda conhecida e encontraram seu caminho para fora das profundezas. Essas pessoas têm uma apreciação, uma sensibilidade e uma compreensão da vida que as enche de compaixão, gentileza e uma profunda preocupação amorosa. Pessoas bonitas não acontecem por acaso.”

Eu, Rose, acredito que as experiências difíceis pelas quais passamos têm o potencial de nos tornar mais profundos, mais sábios, mais compassivos e gratos e, em última análise, mais felizes e mais realizados. A prática de atos de serviço nos dá a possibilidade estar próximos do sofrimento alheio. Isso nos permite ir além das benesses da conexão humana, nos dando a chance de aprender com aquele sofrimento, sem ter que, necessariamente, experimentá-lo. Atos de serviço, portanto, além de mitigar a solidão, são uma valiosa ferramenta de autoaperfeiçoamento.

Isso posto, deixo aos solitários o convite - convocação para que vá em busca de alguém a quem servir. E, encontrando, sirva. De peito aberto, bem como ouvidos, olhos e coração.

Se identificou com o texto? Te convido a ficar por aqui, pois vou seguir compartilhando reflexões no blog. Saiba que a terapia também pode trazer transformações significativas para sua vida.

Se quiser conversar, me chame no whatsapp, tá?

Beijos, Rose

(48) 9.8859-9863 - Instagram @rosequadrospsi

 

Referências bibliográficas

Eisenberger. N.I,The neural bases of social pain: Evidence for shared representations with physical pain, Psychosom Med. 2012 February ; 74(2): 126–135.
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22286852/

REIS, Webster Glayser Pimenta dos. Evidências do papel de mindfulness no aprimoramento das funções executivas. 2014. 67 f. Monografia (Especialização) - Curso de Pós Graduação em Neurocinências, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2014. Cap. 67. Disponível em: https://repositorio.ufmg.br/bitstream/1843/VRNS-9N4FVQ/1/monografia___webster_pimenta___completa.docx.pdf. Acesso em: 22 jul. 2022.

PEIXOTO, Liana Santos Alves; GONDIM, Sônia Maria Guedes. Mindfulness e regulação emocional: uma revisão sistemática de literatura. Smad Revista Eletrônica Saúde Mental Álcool e Drogas (Edição em Português), [S.L.], v. 16, n. 3, p. 88-104, 30 set. 2020. Universidade de Sao Paulo, Agencia USP de Gestao da Informacao Academica (AGUIA). http://dx.doi.org/10.11606/issn.1806-6976.smad.2020.168328.

BOTTONI, Andrea et al. O impacto do Mindfulness no controle da expressão gênica: uma revisão integrativa. Journal Of The Health Sciences Institute, São Paulo, v. 3, n. 38, p. 232-245, jul. 2021. Trimestral. Disponível em: https://repositorio.ufmg.br/bitstream/1843/VRNS-9N4FVQ/1/monografia___webster_pimenta___completa.docx.pdf. Acesso em: 22 jul. 2022.
https://repositorio.unip.br/wp-content/uploads/2021/05/10V38_n3_2020_p232a245.pdf

Terça, 26 Julho 2022 23:01

Solidão e estratégias de enfrentamento

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Esse é o segundo post da série de três textos sobre a dor da solidão e como lidar com ela.
Se você perdeu o primeiro, clica AQUI e dá uma conferida!

automat 1963 Edward Hopper

Automat 1963 Edward Hopper

Solidão e estratégias de enfrentamento

No post anterior, nós chegamos à conclusão de que a solidão é ontológica, ou seja, é uma condição inerente à existência humana. Também descobrimos que a ciência identificou que áreas do cérebro relacionadas à dor física também são acionadas quando o sentimento de solidão aparece. Deixei ainda 4 estratégias para lidar com a solidão sem buscar distrações para fugir dela.

Hoje vou seguir compartilhando mais estratégias que podem te ajudar a ir além de apenas tolerar a solidão, mas te proporcionar a extrair os frutos que ela, e muitas vezes só ela, pode te dar.

1. Cultive a conexão interna e externa

Pesquisas mostram que o bem estar físico e psicológico advindo das relações sociais se devem não tanto pelo número de amigos que temos, mas principalmente pelo nosso senso interno e subjetivo de conexão consigo mesma e com os outros.

Em outras palavras, podemos ter apenas um amigo, ou até mesmo nenhum, mas se nos sentirmos conectados conosco e com o que nos transcende, colheremos os benefícios disso.

Esta descoberta corrobora a percepção de que tudo começa dentro de nós, e que em maior ou menor grau, podemos contar com recursos internos para gerar algum sentimento de conexão.

Percebe o quanto é valioso fortalecer seu senso de identidade e o autoconhecimento? Essas são habilidades que um processo terapêutico bem conduzido pode te ajudar a desenvolver.

2. Cuide do corpo

As distrações, a correria e a desconexão interna, muitas vezes, não nos dão margem para ouvir as necessidades do nosso corpo. Cultivamos hábitos alimentares ruins, abusamos do álcool, negligenciamos o sono e deixamos a atividade física para depois.

O dualismo mente-corpo, ainda tão presente, acaba colaborando para a visão equivocada de que a manutenção de uma boa saúde física tem pouco, ou nenhum, impacto na melhora da saúde mental.

Com relação à atividade física, por exemplo, sabe-se que a prática regular alivia a tensão e o estresse, aumenta a energia física e mental e melhora o bem-estar através da liberação de neurotransmissores específicos relacionados ao prazer, além de favorecer a regeneração neuronal e melhorar a qualidade do sono.

Além disso, cultivar hábitos saudáveis pode te ajudar a conhecer melhor seu corpo, aumentando sua sensibilidade para o que ele precisa em cada momento. Isso aumenta sobremaneira sua conexão interna que, como já vimos, é essencial para uma boa saúde mental.

3. Pratique atos de serviço

Essa é uma das minhas estratégias favoritas! Costumava colocá-la em prática diariamente no meu tempo de seminário.

“Seja gentil, pois todos que você conhece estão travando uma dura batalha”. A citação, atribuída a Ian Maclaren, e tão difundida nas redes sociais, ressoa profundamente em todos nós.
Acredito nos benefícios dessa prática não por considerar que sempre há alguém sofrendo mais do que você ou eu. Longe de mim querer mensurar a dor alheia. Somente quem a sente pode tentar dimensioná-la, e o que causa em sua vida.

Acredito nessa prática porque, se feita de coração aberto, você se dá a oportunidade de olhar para a dor do outro sem julgamentos, com o propósito de fazer algo por essa pessoa que sofre, você deixa de lado, nem que seja por alguns instantes, o que te machuca. A conexão gerada em momentos de vulnerabilidade é poderosa, e certamente deixará a solidão mais distante de ambos os envolvidos.

Não buscamos, com isso, resolver o problema da pessoa. Talvez não seja possível proporcionar nem o alívio da dor em si. No entanto, o foco é fazer algo que tenha o poder de trazer um sorriso genuíno no rosto daquele que sofre, gerando nele o sentimento de esperança ao perceber que ainda há alguém que se importa com ele.

O ato de serviço pode ser algo grande ou pequeno, o importante é que seja significativo para o indivíduo que o recebe.
Para descobrir qual seria esse ato significativo, você precisará investir tempo. Tempo para sair de si e se colocar no lugar daquela pessoa, não para pensar em como se sentiria ou no que você gostaria que fizessem por você, mas para entender como aquela pessoa se sente diante do que está vivendo, e o que tornaria o dia dela um pouco mais leve. Esse exercício aumenta nossa capacidade de conexão interna e externa, o que favorece o estreitamento de relacionamentos.

E, pense comigo: prática de atos de serviço é tão simples…
"Nunca se preocupe com números, ajude uma pessoa de cada vez e comece pela mais próxima você", disse certa vez Madre Teresa de Calcutá.
O objetivo aqui não é projetar uma imagem de boa pessoa para a sociedade, ou alimentar essa autoimagem para se sentir bem consigo mesma. Seu ato de serviço é um ato de conexão que ajudará a diminuir sua solidão.

Sabe-se que a compaixão e o serviço podem ser de enorme benefício para quem os pratica. Muitas vezes, quando nos sentimos deprimidos ou sozinhos, nossa visão de mundo se torna estreita. Ajudar os outros pode mudar instantaneamente nossa perspectiva, além de nos revigorar, e é por isso que a compaixão tem sido associada ao bem-estar. Como disse Mahatma Gandhi: “A melhor maneira de se encontrar é se perder a serviço dos outros”.

No próximo, e último post da série sobre solidão, vou aprofundar um pouco mais nos atos de serviço e seus benefícios. Espero você aqui para continuarmos essa conversa, ok?
Se identificou com o texto? Te convido a ficar por aqui, pois vou seguir compartilhando estratégias para lidar com a solidão nos próximos posts. Saiba que a terapia também pode trazer transformações significativas para sua vida.

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Beijos, Rose
(48) 9.8859-9863 - Instagram @rosequadrospsi

Referências bibliográficas

Eisenberger. N.I,The neural bases of social pain: Evidence for shared representations with physical pain, Psychosom Med. 2012 February ; 74(2): 126–135.
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22286852/

REIS, Webster Glayser Pimenta dos. Evidências do papel de mindfulness no aprimoramento das funções executivas. 2014. 67 f. Monografia (Especialização) - Curso de Pós Graduação em Neurocinências, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2014. Cap. 67. Disponível em: https://repositorio.ufmg.br/bitstream/1843/VRNS-9N4FVQ/1/monografia___webster_pimenta___completa.docx.pdf. Acesso em: 22 jul. 2022.

PEIXOTO, Liana Santos Alves; GONDIM, Sônia Maria Guedes. Mindfulness e regulação emocional: uma revisão sistemática de literatura. Smad Revista Eletrônica Saúde Mental Álcool e Drogas (Edição em Português), [S.L.], v. 16, n. 3, p. 88-104, 30 set. 2020. Universidade de Sao Paulo, Agencia USP de Gestao da Informacao Academica (AGUIA). http://dx.doi.org/10.11606/issn.1806-6976.smad.2020.168328.

BOTTONI, Andrea et al. O impacto do Mindfulness no controle da expressão gênica: uma revisão integrativa. Journal Of The Health Sciences Institute, São Paulo, v. 3, n. 38, p. 232-245, jul. 2021. Trimestral. Disponível em: https://repositorio.ufmg.br/bitstream/1843/VRNS-9N4FVQ/1/monografia___webster_pimenta___completa.docx.pdf. Acesso em: 22 jul. 2022.
https://repositorio.unip.br/wp-content/uploads/2021/05/10V38_n3_2020_p232a245.pdf

Terça, 26 Julho 2022 20:25

Sobre a dor da solidão e como lidar com ela

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solidão dói. A maioria de nós já experimentou isso. Eu, particularmente, experimento agora, enquanto escrevo esse texto.

Hoje começo no blog uma série de 3 posts a respeito da solidão, com o intuito de trazer para você estratégias para te ajudar a aprender a lidar com ela, e até mesmo a aliviá-la.

eleven am

Eleven A.M., 1926, Edward Hopper

A solidão contemporânea

A vida corrida tornou-se regra, e não exceção. Aparatos tecnológicos alcançaram a posição de gêneros de primeira necessidade, trazendo cada vez mais a falsa impressão de que permanecemos conectados a pessoas que não nos encontramos, muitas vezes a meses ou anos.

Para que um vínculo de intimidade aconteça e se aprofunde, é necessário que ambas as partes compartilhem vulnerabilidades, o que acontece somente quando dedicam tempo para se conhecerem. Se olharmos com cuidado para o nosso dia a dia, há grande chance de percebermos que momentos de troca real, íntima e genuína, sem interrupção, com verdadeira conexão entre corpos e mentes, vem se tornando cada vez mais raros.

A solidão se manteve onipresente através dos tempos. No entanto, a forma de organização social atual favoreceu o aumento de relatos desse sentimento, bem como o tempo de permanência dele e a profundidade na qual se manifesta. Estudos sociológicos americanos corroboram com essa percepção, demonstrando que a desconexão parece estar aumentando. Constatou-se que uma em cada quatro pessoas, ou 25% dos entrevistados, relatam não ter ninguém com quem conversar sobre questões pessoais.

A solidão também é o principal motivo citado para a busca de terapia, e outro estudo sugere que ela é um fator de risco para a mortalidade. O impacto dos vínculos sociais na saúde mental e física tornou-se explícito e inquestionável com a chegada da pandemia e do distanciamento social compulsório.

A dimensão desse impacto fica evidente quando pedimos às pessoas que citem uma única atividade que lhes traz maior satisfação. A resposta mais frequentemente obtida é passar tempo com amigos e entes queridos, pessoas com quem se tem laços.

Solidão e dor

A dor da solidão já não pode mais ser considerada como subjetiva. A neurociência documentou dados que correlacionam a solidão à dor física. Evidências mostraram que sentimentos de ostracismo ativam as regiões neurais relacionadas à dor física. (Eisenberger, 2012).

Considerando-se que a dor é um mecanismo de defesa, na medida que alerta o organismo a respeito de algo que possa estar ameaçando sua integridade, pode-se inferir que a solidão é percebida pelo corpo humano como uma ameaça à sobrevivência.

A verdade é que, sob alguma perspectiva, estamos todos fundamentalmente sozinhos. Viemos ao mundo sozinhos, e assim também o deixamos. Somos entidades independentes, com pensamentos, sentimentos e emoções particulares. Somos ímpares, e essa singularidade inviabiliza ao outro a experimentação ou percepção de um mesmo acontecimento exatamente como nós o fazemos.

Paradoxalmente, estamos interconectados, não importa quão poucos sejam nossos amigos, ou com quantas pessoas mantemos contato regular.
Parafraseando Boff em seu livro Saber Cuidar, independentemente das nossas crenças ou desejos, há um elo maior de interligação entre o todo. Esse todo orgânico único, diverso e sempre includente, é constituído por todos os seres vivos, que estão interligados.

O progresso humano, historicamente, acontece quando nos organizamos em comunidades, estabelecendo relacionamentos dinâmicos, nos quais podemos dar e receber. Econômica e socialmente estamos conectados através da intrincada teia de relações que nos proporcionam bens necessários à sobrevivência.

A conexão é literal quando pensamos a respeito do ar que respiramos, do solo que pisamos, da ecosfera que compartilhamos. Estamos sozinhos e profundamente conectados.

Distração e fuga

A distração como opção de fuga é onipresente na sociedade atual, diante de tantas opções de lazer virtuais. A maioria de nós aprendeu a se distrair no exato momento em que sentimos uma emoção desconfortável, como a solidão.

Há opções “saudáveis” de distração, como por exemplo ler, fazer exercícios ou trabalhar; e outras “pouco saudáveis”, como comer demais, consumir bebida alcoólica em maior quantidade e/ou frequência, ou assistir a horas de televisão.

Embora ofereçam alívio temporário, elas apenas camuflam o desconforto, e tiram de você a oportunidade de lidar com a solidão. As distrações, geralmente, trazem consigo outros problemas, como ganho de peso, abuso de álcool, exaustão e esgotamento.

Veja como as crianças costumam lidar com seus sentimentos. Ao observá-las, percebemos que elas dão vazão às emoções com naturalidade. É claro que isso se deve, em parte, à imaturidade emocional inerente à pouca idade.

No entanto, essa forma de lidar com os sentimentos é também o principal motivo de elas superarem situações negativas com maior rapidez, passando para o próximo capítulo como se nada houvesse ocorrido.

Já os adultos, na tentativa de calar e controlar suas emoções, acabam carregando-as consigo por anos. Permitir que a emoção aflore, de forma respeitosa para consigo mesmo e para com o outro, dando-lhe toda a nossa atenção, pode ser a chave para se desvencilhar dela.

Venho aprendendo a lançar mão de estratégias para dar espaço para minha próprias emoções, incluindo a solidão. Hoje, na posição de alguém que compartilha dessa dor com você, deixo quatro sugestões que podem te ajudar a lidar com a solidão e a construir resiliência.

1. Permita-se expressar a emoção

Isso pode ser especialmente difícil se você está acostumada a utilizar-se de distrações para ignorar seus sentimentos. Porém, deixar que a emoção venha à tona sem subterfúgios, se permitindo senti-la por completo, te ajudará a se restabelecer com maior rapidez. Coloque-se na posição de observadora, identificando os pensamentos e sensações que a emoção desencadeia. Se o choro vier, deixe-o fluir. Sinta o desconforto de forma consciente, tolerando a permanência momentânea nesse lugar.

2. Fique em silêncio

O silêncio pode ser difícil e até assustador para algumas pessoas. Nos acostumamos aos ruídos de fundo, seja de noticiários, podcasts, aulas ou até mesmo “ruídos brancos” tocando ao fundo, enquanto fazemos outras coisas, seja por bips, alertas, barulho do tráfego. Meia horinha sem estímulos audíveis trará grandes benefícios para você.

Se for difícil permanecer em silêncio, uma boa opção é fazer uma caminhada, ou natação, ou alguma outra atividade que te conduza ao silêncio e à introspecção. Cuide apenas para que a atividade não se torne uma distração.

O objetivo do silêncio é oferecer espaço para que você entre em contato consigo mesma, reconheça suas emoções e perceba o efeito delas em você. Portanto, é essencial escolher fazer algo que te permita ficar em silêncio de forma consciente, estando o mais presente possível com relação ao seu interior e ao que está ao seu redor.

3. Aprenda a praticar mindfulness

Mindfulness é a capacidade de desenvolver atenção plena e consciência na experiência presente, no momento presente, sem julgamento. Não se trata de atividade esotérica ou mística, mas de uma prática com evidências científicas de seus benefícios.

Defina um limite de tempo e não se levante até que o tempo acabe. Você pode começar com cinco minutos e, eventualmente, estender para 20 ou 30 minutos de cada vez. Durante a prática dê vazão às sensações, pensamentos e emoções que surgirem, sem tentar controlá-los ou mudá-los.

Coloque-se novamente na posição de observadora, olhando com gentileza para o que for surgindo. Se as emoções ficarem desconfortáveis, recrute sua força, sua tenacidade e paciência para perseverar no momento presente.

4. Pratique a respiração Consciente

Essa é mais uma forma de construir resiliência ao estresse, à ansiedade e a outras emoções desconfortáveis.

Perceba que as estratégias abordadas até aqui são maneiras diferentes para que você construa a habilidade e o hábito de estar 100% no momento presente, experimentando o que ele traz, seja positivo ou negativo.

Sei que isso pode ser extremamente desafiador, e até parecer impossível para algumas pessoas. Acredite, eu sei. Já me senti assim, e às vezes ainda me sinto. Nesses momentos busco me lembrar aprender a tolerar o desconforto, ou disciplinar minha mente a estar presente no agora, favorece que a emoção vá embora mais rapidamente, enquanto que, quando busco a distração, geralmente o sentimento desconfortável permanece comigo por mais tempo.

Se identificou com o texto? Te convido a ficar por aqui, pois vou seguir compartilhando estratégias para lidar com a solidão nos próximos posts. Saiba que a terapia também pode trazer transformações significativas para sua vida.

Se quiser conversar, me chame no whatsapp, tá?

Beijos, Rose

(48) 9.8859-9863 - Instagram @rosequadrospsi

Referências bibliográficas

Eisenberger. N.I,The neural bases of social pain: Evidence for shared representations with physical pain, Psychosom Med. 2012 February ; 74(2): 126–135.
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22286852/

REIS, Webster Glayser Pimenta dos. Evidências do papel de mindfulness no aprimoramento das funções executivas. 2014. 67 f. Monografia (Especialização) - Curso de Pós Graduação em Neurocinências, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2014. Cap. 67. Disponível em: https://repositorio.ufmg.br/bitstream/1843/VRNS-9N4FVQ/1/monografia___webster_pimenta___completa.docx.pdf. Acesso em: 22 jul. 2022.

PEIXOTO, Liana Santos Alves; GONDIM, Sônia Maria Guedes. Mindfulness e regulação emocional: uma revisão sistemática de literatura. Smad Revista Eletrônica Saúde Mental Álcool e Drogas (Edição em Português), [S.L.], v. 16, n. 3, p. 88-104, 30 set. 2020. Universidade de Sao Paulo, Agencia USP de Gestao da Informacao Academica (AGUIA). http://dx.doi.org/10.11606/issn.1806-6976.smad.2020.168328.

BOTTONI, Andrea et al. O impacto do Mindfulness no controle da expressão gênica: uma revisão integrativa. Journal Of The Health Sciences Institute, São Paulo, v. 3, n. 38, p. 232-245, jul. 2021. Trimestral. Disponível em: https://repositorio.ufmg.br/bitstream/1843/VRNS-9N4FVQ/1/monografia___webster_pimenta___completa.docx.pdf. Acesso em: 22 jul. 2022.
https://repositorio.unip.br/wp-content/uploads/2021/05/10V38_n3_2020_p232a245.pdf

Sexta, 15 Julho 2022 18:16

Será que eu preciso de terapia?

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Será que eu preciso de terapia?
Você tem se perguntado se deveria buscar por psicoterapia? Então esse texto é para você.

O paradoxo estendido na areia obra de Olivia Viana Piccola Galleria da Casa Fiat de Cultura

O paradoxo estendido na areia - Obra de Olívia Viana Piccola Galleria da Casa Fiat de Cultura

Psicoterapia, terapia, conversa ou aconselhamento profissional – não importa o nome utilizado, o atendimento de saúde mental pode trazer grandes benefícios não só para pessoas com transtornos mentais diagnosticados ou sob investigação, mas para aquelas que estão enfrentando dificuldades emocionais ou desafios de vida.

Terapia, por quê?

A terapia pode ajudar a melhorar sintomas referentes a muitas condições de saúde física e mental. O acompanhamento psicoterápico te ajuda a aprender formas de lidar com situações que fogem do seu controle, como morte, doença, dentre outras, diminuindo assim o sofrimento.

Além disso, com a terapia você pode passar a perceber novas possibilidades de escolha em situações que julgava ser impotente.

Quando a medicação se faz necessária, a terapia é essencial para a eficácia do tratamento, pois fornece ferramentas para que a pessoa aprenda a lidar com muitas de suas dificuldades. Essas habilidades permanecem mesmo após o término da terapia, e os sintomas podem apresentar melhora progressiva na medida que as sessões avançam. Pesquisas já documentaram de forma extensa que, em casos de transtornos mentais, os benefícios da terapia duram mais do que os da medicação, quando utilizada sozinha.

Transtornos mentais - dados

Mais de 50% dos brasileiros afirmaram que sua saúde emocional e mental piorou desde o início da pandemia, um índice superior à média dos 30 países pesquisados pelo Instituto Ipsos, que entrevistou 21 mil pessoas (sendo 1 mil delas no Brasil) de 16 a 74 anos, de forma online. O levantamento foi encomendado pelo Fórum Econômico Mundial.

Cerca de 53% dos brasileiros declararam que seu bem-estar mental piorou entre 2020 e 2022, índice somente maior em quatro países: Itália (54%), Hungria (56%), Chile (56%) e Turquia (61%). Fonte: Portal PEBMED.

Problemas de saúde mental são comuns na população mundial. No entanto, estatísticas recentes da National Alliance on Mental Health apontaram que apenas cerca de 40% das pessoas com problemas de saúde mental recebem ajuda.

Quando não tratados, os transtorno geralmente pioram e podem trazer outros efeitos negativos. Alguns deles são:

  • Incapacidade de trabalhar ou ir à escola
  • Dificuldade em relacionamentos ou cuidar de crianças
  • Aumento do risco de problemas de saúde
  • Hospitalização
  • Pensamentos ou tentativas de autoextermínio

Eu “preciso” de terapia?

Quando questões emocionais e/ou mentais começam a afetar a vida e a função diária, a terapia é uma boa opção. Com ela você poderá aprender a reconhecer seus sentimentos, o que costuma despertá-los e como lidar com eles.

A terapia também oferece um lugar seguro para conversar sobre os desafios da vida, como separações, luto, dificuldades relacionadas à família, ao trabalho, impactos do COVID e outras doenças, dentre outros.

Um bom exemplo é o aconselhamento de casais. Com ele, você e seu parceiro tem novas possibilidades para aprender a lidar com problemas de relacionamento e encontrar novas maneiras de se relacionar.

Quando a terapia deve ser considerada?

Diante de fatores estressores, há quem opte por implementar algumas mudanças no estilo de vida, ou buscar apoio de amigos e familiares, e dar tempo ao tempo para perceber se as mudanças serão suficientes para obter melhora.

O acompanhamento psicoterápico se faz necessário quando questões mentais trazem intenso sofrimento e causam impactos negativos em alguma área da vida.

Abaixo há alguns pontos que podem indicar a necessidade de psicoterapia:

  • O problema trouxe diminuição da sua qualidade de vida;
  • Você passa 1 hora por dia ou mais pensando no problema;
  • Você fez mudanças em sua vida ou desenvolveu hábitos para tentar administrar o desafio;
  • O problema te causa constrangimento ou faz você querer evitar outras pessoas;
  • Você ou outras pessoas percebem a questão vem causando impactos negativos no ambiente escolar, no trabalho ou nos relacionamentos;
  • Você se sente controlado por seus sintomas;
  • Os sintomas têm potencial para causar danos em você ou a outros

Se você experimentar qualquer uma das seguintes emoções ou sentimentos abaixo, a ponto de interferir no seu cotidiano, um atendimento de saúde mental pode ser necessário:

  • Sensação de sobrecarga: há o sentimento constante de que há muitas coisas para fazer ou problemas para lidar. Sensação de não conseguir descansar, e até mesmo respirar.
  • Fadiga: sintoma físico que pode acompanhar problemas de saúde mental. A fadiga pode fazer com que você durma mais do que o normal ou tenha problemas para sair da cama pela manhã.
  • Irritabilidade, raiva ou ressentimento desproporcionais. Buscar apoio para lidar com esses sentimentos pode ser uma boa ideia quando eles não passam, são extremos em relação à situação, ou se levam você a realizar ações violentas ou potencialmente danosas.
  • Apatia: Perder o interesse nas atividades habituais, no mundo ao seu redor ou na vida em geral pode indicar problemas de saúde mental como depressão ou ansiedade.
  • Desesperança: Perder a esperança ou a motivação, ou sentir que não tem futuro, pode indicar depressão ou outra condição de saúde mental. Sentir -se sem esperança de vez em quando, especialmente após um período de dificuldade, é incomum e esperado. Quando persiste, pode indicar a presença de algum transtorno mental.

Se identificou com o texto? Te convido a ficar por aqui, pois vou falar mais sobre o assunto em outros posts. Saiba que a terapia também pode trazer transformações significativas para sua vida.

Se quiser conversar, me chame no whatsapp, tá? Beijos, Rose

(48) 9.8859-9863 - Instagram @rosequadrospsi

 

Você sofre com experiências difíceis vividas na infância, mas ainda não sabe como descrevê-las ou nomeá-las, ou ainda percebe que aos olhos do outro elas não são levadas a sério? Talvez esse texto possa te ajudar.

 10 sinais de que você foi cuidada por pais emocionalmente imaturos

THE INNER CHILD Love by Ukrainian artist Alexander Milov at the 2015 Burning Man festival

Love Escultura feita pelo artista ucraniano Alexander Milov exibida no 2015 Burning Man festival

Há pessoas que crescem carregando um grande vazio e solidão dentro de si, e isso muitas vezes é atribuído, até mesmo por profissionais da saúde mental, a questões relacionadas à personalidade, à percepção equivocada do ambiente no qual cresceu, ou ainda a fraqueza e imaturidade. 

No entanto, a psicóloga Lindsay Gibson defende uma outra tese. Segundo ela, crescer com pais emocionalmente imaturos pode resultar em uma infância solitária e emocionalmente negligenciada, o que pode afetar a vida adulta.

Seu último livro, Filhos Adultos de Pais Emocionalmente Imaturos: Como se curar de pais que rejeitam ou que são distantes e egoístas, versa sobre esse universo peculiar e de difícil compreensão, tanto para quem o experimentou quanto para quem ouve relatos a respeito.

Neste texto, quando eu usar a palavra pai (s), estarei me referindo ao cuidador que exerce a função parental, seja qual for o seu gênero, ou se a exerce sozinho ou em dupla. Quando for usada a palavra filho (a) (s), estarei me referindo a quem ocupa a posição filial, independentemente do número ou do gênero, ok? Então, vamos em frente!

Pais emocionalmente imaturos (EI) são descritos pela autora como frustrantes e desmoralizantes. É difícil amar um pai emocionalmente bloqueado, que espera honra e tratamento especial, mas que em contrapartida oferece apenas controle e distanciamento.

Lindsay ressalta que o relacionamento com pais EI é marcado pela insatisfação das necessidades emocionais do (a) filho (a). Pais assim demonstram pouco interesse em experimentar a intimidade emocional na qual duas pessoas se conhecem e se entendem em um nível profundo. Esse compartilhamento mútuo de sentimentos e de intimidade cria um vínculo sólido e satisfatório, no qual ambos valorizam a presença do outro em suas vidas.

Além disso, um relacionamento parental emocionalmente saudável é um dos principais fios condutores para construção de autovalor pela criança nele envolvida. No entanto, pais EI geralmente não demonstram habilidade ou desejo para desenvolver relacionamento dessa natureza. Ao menos não com seus filhos.

Se seus pais são assim, pode ser que aconteça de às vezes, você vislumbrar neles um desejo fugaz por uma conexão real, o que te leva a, mais uma vez, baixa a guarda e estende a mão na expectativa de que tão esperada conexão finalmente aconteça. Ao contrário das suas expectativas, infelizmente, quanto mais você estende a mão, mais eles recuam, temerosos diante da possibilidade de uma intimidade real.

Num relacionamento pais/filhos, os últimos precisam receber atenção como forma de garantir não só sua sobrevivência, mas principalmente sua formação identitária e valorativa. Nesse contexto, a aversão dos primeiros à intimidade, cria um relacionamento empurra - puxa, no qual o filho se mantém na posição de busca por afeto por muitos anos, mesmo quando é repetidamente rejeitado por seus pais. É como tentar aproximar imãs diferentes a partir de seus polos iguais. Pais EI costumam se afastar de forma síncrona à aproximação de seus filhos.

Tal padrão, invariavelmente, prejudica o lado mais frágil, ou seja, você, que se vê insatisfeito e emocionalmente solitário, muitas vezes sem conseguir explicar de onde vem esses sentimentos ou o que os causaram. A sensação de vazio e inadequação te acompanharam pela vida, fazendo você se questionar a respeito do que há de errado consigo. Você se preocupa com seus pais, mas por mais que tente, não consegue se aproximar o suficiente para ter um relacionamento real.

Apesar de tudo, eu tenho uma boa notícia para você, filho de pais EI: após entendê-los, suas experiências e sua solidão emocional farão todo o sentido para você. Compreender o modo de funcionamento EI vai te auxiliar a lidar com seus pais, ou qualquer pessoa emocionalmente imatura (PEI), de forma a libertá-lo de das costumeiras coerções emocionais e do senimento de culpa, e alinhar suas expectativas quanto ao que você pode ou não esperar deles.

Como é ter pais emocionalmente imaturos

Os pais de EI e outras PEIs têm um estilo interpessoal passível de ser reconhecido através de padrões que costumam se repetir. As dez experiências elencadas abaixo pela autora, e por mim aqui copiladas, podem te ajudar a identificá-los.

1. Você se sente emocionalmente solitário perto deles

Crescer com pais EI promove a solidão emocional. Seus pais podem até estar fisicamente presentes, mas emocionalmente você pode ter se sentido sozinho durante toda sua vida.

Embora você possa sentir um vínculo familiar com seu pai EI, isso é muito diferente de um relacionamento pai-filho emocionalmente seguro, promotor de uma autoimagem positiva. Os pais de EI tem perfil controlador e diretivo, e ficam desconfortáveis com a manifestações de cunho emocional.

Eles podem cuidar bem de você quando você está doente, podem te oferecer boas escolas, boa comida, educação formal decente, no entanto não sabem o que fazer com sentimentos feridos ou corações partidos. Como resultado, eles podem parecer artificiais, distantes, desajeitados ou até mesmo agressivos ao tentar acalmar uma criança angustiada.


2. As interações parecem unilaterais e frustrantes

Pais EI são socialmente percebidos como pessoas empáticas. No entanto, na esfera íntima, demonstram clara auto-absorção e a empatia limitada, fazendo com que as interações com eles pareçam unilaterais.

É como se estivessem presos em seu próprio auto-envolvimento. Quando você tenta compartilhar algo importante para você, é possível que eles falem brevemente sobre o que você traz, mas logo direcionam o assunto para falar sobre si mesmos, ou apenas ignorem o que você está dizendo.

Filhos de pais EI muitas vezes sabem muito mais sobre os problemas de seus pais do que os pais sabem sobre os deles. Embora os pais EI exijam sua atenção quando estão chateados, eles raramente oferecem escuta ou empatia quando você está angustiado.

Em vez de sentar-se com você e deixá-lo colocar tudo para fora, absorvendo sua descarga emocional e te auxiliando a lidar com seus sentimentos, os pais EI normalmente oferecem soluções superficiais, dizem para você não se preocupar ou até mesmo ficam irritados com você por estar chateado. O coração deles parece fechado, como se não houvesse lugar para onde você possa ir dentro deles para obter compaixão ou conforto.

3. Você se sente coagido e preso

Os pais EI insistem que você os coloque em primeiro lugar e os deixe comandar o show. Para isso, eles o coagem de forma sutil, porém bastante incisiva, induzindo sentimentos como vergonha, culpa ou medo até que você faça o que eles querem. Eles podem explodir em culpa e raiva caso você não se submeta ao que desejam.

Muitas pessoas usam a palavra manipulação para esses tipos de coerção emocional. Lindsay, no entanto, acredita que essa palavra é enganosa. Ela caracteriza esses comportamentos como instintos de sobrevivência. Pais assim fazem o que for necessário para se sentirem no controle e protegidos, desconsiderando as consequências causadas em você.

Esse estilo superficial de relacionar-se pode gerar em você o sentimento de estar encarcerado em um relacionamento raso. É como se você tentasse nadar em uma poça, que não tem água suficiente para molhar seus joelhos, mas que mantém seus pés presos ao fundo. 

Como os pais EI se relacionam de maneira superficial e egocêntrica, conversar com eles costuma ser chato. Eles se apegam a tópicos de conversa com os quais se sentem seguros, que rapidamente se tornam estagnados e repetitivos.

4. Eles vêm em primeiro lugar e você é secundário

Pais EI são extremamente autorreferenciais, o que significa que tudo é sempre sobre eles. Estão convictos de que você vai aceitar o segundo lugar quando se trata de suas necessidades, e te conduzem para esse desfecho. Pais EI elevam os próprios interesses a ponto de tornarem os seus inferiores ou menos importantes.

Eles não buscam um relacionamento igualitário entre dois seres humanos, muito menos assumem o lugar emocional do cuidador que deve se responsabilizar por atender as necessidades de seus filhos. Aparentam ser pródigos no que se refere ao que a sociedade espera deles como pais, mantendo a aparência de que oferecem o necessário para seus filhos. Isso, inclusive, dificulta que suas dores sejam legitimadas tanto por você quanto por quem as escuta.

Pais EI querem lealdade cega à sua necessidade de serem considerados em primeiro lugar. Sem um cuidador disposto a dar alta prioridade às suas demandas emocionais naturais de qualquer filho, a insegurança acaba por se instalar precocemente dentro de você.

É possível que boa parte de sua energia seja despendida com pensamentos ruminantes a respeito do que eles podem estar pensando sobre você, ou ainda se perguntando se pensavam em você, ou temendo que eles surgissem intempestivamente com uma nova exigência a ser cumprida.

Tal ambiente aumenta a vulnerabilidade de qualquer criança ao estresse, à ansiedade e à depressão. Essas são reações razoáveis a um ambiente com dados de realidade indicadores de que você não podia confiar em um cuidador para perceber suas necessidades e satisfazê-las, ou protegê-lo de coisas que o sobrecarregavam.

5. Eles não serão emocionalmente íntimos ou vulneráveis com você

Embora sejam altamente reativos emocionalmente, pais EI na verdade evitam seus sentimentos mais profundos. Eles temem ser emocionalmente expostos e muitas vezes se escondem atrás de um exterior defensivo. Costumam evitar dar e receber gestos de ternura de seus filhos, temendo que isso os torne vulneráveis, o que para eles é sinônimo de fraqueza.

Acreditam que demonstrações de amor possam minar seu poder como pais, porque o poder é tudo o que eles creem possuir. Aparentemente, poder é o que alimenta suas emoções, é o que os move, por isso não abrem mão dele.

Mesmo que os pais EI escondam suas fragilidades, costumam demonstrar intensa emoção quando brigam com seu parceiro, ou reclamam de seus problemas, quando desabafam ou ficam furiosos com seus filhos. Se chateados, não demonstram medo de externar o que sentem. 

No entanto, essas erupções unilaterais de emoção são apenas válvulas de escape para suas pressões internas. Explosões, nesse caso, não são indícios de um desejo de estar aberto a uma conexão emocional real.

Por esta razão, é bem difícil confortá-los. Com o objetivo de te fazerem perceber o quanto estão chateados, pais EI se esforçam para que você sinta sua dor, mas resistem à intimidade do verdadeiro conforto. Se você tentar fazê-los se sentirem melhor, eles podem reagir com agressividade.

Essa baixa capacidade receptiva os impede de receber qualquer conforto e fazer conexão com o que você tente oferecer, o que acaba aumentando seu sentimento de vazio emocional e inadequação.

6. Eles se comunicam por meio de contágio emocional

Em vez de falar sobre seus sentimentos de forma pessoal, os EIs se expressam não verbalmente por meio de contágio emocional (Hatfield, Rapson e Le 2009), ultrapassando os limites dos filhos, deixando-os tão chateado quanto eles.

Na teoria dos sistemas familiares, essa ausência de limites saudáveis é chamada de fusão emocional (Bowen, 1985), enquanto na terapia familiar estrutural é chamada de enredamento (Minuchin, 1974). Este é o processo pelo qual os membros da família EI são absorvidos pelas emoções e problemas psicológicos uns dos outros.

Pais EI agem como se fossem a criança da relação, e querem que você intua o que eles sentem sem que eles digam nada. Sentem-se magoados e com raiva quando você não adivinha suas necessidades. Caso você contra argumente dizendo que nada lhe foi dito, as respostas costumam oscilar entre: “Se você realmente me amasse, você saberia”, ou “você não percebe nada mesmo”, induzindo em você a culpa e a sentimentos de desvalor.

Pais EI tem a expectativa irreal de que você fique constantemente sintonizado com eles, e agem debaixo dessa premissa. É legítimo que um bebê ou criança pequena espere tal atenção de seus pais, mas não que um pai espere isso de seu filho.

7. Eles não respeitam seus limites ou individualidade

Pais EI realmente não percebem a existência de limites entre eles e os filhos. Agem como se os filhos fossem um prolongamento de si mesmos, ou um objeto, que existe para obedecer suas ordens, satisfazer seus desejos e para o qual tem o direito de direcionar suas frustrações e sua agressividade.

Emocionalmente fundidos, relacionam limites a rejeição, sugerindo que você não se importa o suficiente com eles para dar-lhes acesso livre à sua vida. É por isso que eles agem incrédulos, ofendidos ou magoados se você pedir que respeitem sua privacidade.

Os pais EI também não respeitam sua individualidade porque consideram isso desnecessário. Buscam papéis dominantes e privilegiados nos quais não precisam respeitar os limites dos outros.

A intimidade do lar, protegida do controle social externo, é o lugar perfeito para o EI exercer esse papel. Lembra-se de qual é o alimento emocional deles? É o poder. Dentro de suas casas, o poder quem eles têm é, muitas vezes, ilimitado.

Ao crescer nesse ambiente, o desenvolvimento de sua individualidade e da consciência de quem você pode ser uma tarefa hercúlea, quiçá impossível. Se para um adulto é difícil se desvencilhar de uma fusão emocional tão profunda, imagine para uma criança presa em uma relação dessa natureza com alguém a quem ela deve a vida?

O desejo pulsante por ser quem se é, oprimido violentamente pela despersonalização causada pela fusão emocional com esses pais, é fonte de angústia extrema para você. Essa angústia pode ter te acompanhado por toda a vida e é altamente adoecedora.

Pais EI se sentem amados apenas quando você permite que tenham acesso incondicional a sua vida. Família e papéis são sagrados para eles, que não entendem por que você quer ter seu espaço ou uma identidade individual separada deles. Não compreendem por que você não pode simplesmente ser como eles, ter os mesmos pensamentos, crenças e valores.

Você é filho deles e, portanto, pertence a eles e devem pensar, agir e viver como eles querem. Mesmo quando você cresce, a expectativa da sua permanencia na posição de filho obediente segue existindo. Caso você insista em ter sua própria vida, esperam que, pelo menos, sempre siga seus conselhos.

8. Você faz o trabalho emocional no relacionamento

O trabalho emocional (Fraad, 2008) é o esforço que você faz para se adaptar emocionalmente às necessidades de outras pessoas. Ele pode ser fácil – como ser educado e agradável – ou profundamente complicado, como se esforçar para dizer a coisa certa ao seu adolescente perturbado.

O trabalho emocional é composto de empatia, bom senso, consciência dos motivos e antecipação de como alguém provavelmente responderá às suas ações. Quando as coisas dão errado em um relacionamento, a necessidade de trabalho emocional dispara. Pedir desculpas, buscar a reconciliação e fazer as pazes estão entre os trabalhos emocionais extenuantes que sustentam relacionamentos saudáveis de longo prazo.

Pais EI não têm interesse em consertar o relacionamento, pois acreditam que você é obrigado a se relacionar com eles, não importando as circunstâncias. Os esforços de reconexão, geralmente, recaem sobre você. Ao invés de tentarem reparar o dano, ou pedir de desculpas, pais EI muitas vezes pioram as coisas projetando culpa, acusando os outros, e negando a responsabilidade pelo seu comportamento.

Em uma situação na qual seria mais fácil simplesmente pedir desculpas e seguir em frente, os pais EI podem ser inflexíveis, direcionando o motivo da desavença para algo que você fez - ou deixou de fazer – e que justificou o comportamento prejudicial por parte deles. Se você fosse mais inteligente, ou fizesse o que eles pediram, esse problema nunca teria ocorrido. Até a culpa e a responsabilidade pelo descontrole deles passa a ser sua.

9. Você perde sua autonomia emocional e liberdade mental

Como os pais EI vêem você como uma extensão de si mesmos, desconsideram seu mundo interior de pensamentos e sentimentos. Em vez disso, eles reivindicam o direito exclusivo de julgar seus sentimentos como sensatos ou injustificados. Não respeitam sua autonomia emocional, sua liberdade e direito de ter os próprios sentimentos.

Como seus pensamentos devem refletir os deles, reagem com choque e desaprovação se você tiver ideias que os ofendam. Você não é livre para considerar certas coisas, mesmo na privacidade de sua própria mente (“Nem pense nisso!”). Seus pensamentos e sentimentos são filtrados, na perspectiva de conforto deles, como bons ou ruins.

10. Eles podem ser desmancha-prazeres e até sádicos

Pais EI podem ser terríveis desmancha-prazeres, tanto para seus filhos quanto para outras pessoas. Eles raramente conseguem refletir a respeito dos sentimentos dos outros, com exceção de manifestações em ambientes sociais com as quais busca validar sua imagem de empata e altruísta. No entanto, eles não têm capacidade de sentir genuíno prazer na felicidade de outras pessoas.

Em vez de apreciar as realizações de seus filhos, os pais EI podem reagir de maneira a exibir as conquistas dos filhos como forma de atestar sua própria superioridade, enquanto, ao mesmo tempo retiram o brilho do orgulho da criança. Eles também são famosos por esvaziar os sonhos de seus filhos, lembrando-os das realidades deprimentes da vida adulta e do quão impossível é alcançá-los. Carregam sempre um persuasivo óbice na ponta da língua, não importa qual seja a aspiração manifestada por seu filho.


Se viu nesse texto? Te convido a ficar por aqui, pois vou falar mais sobre o assunto em outros posts.

Quero te dizer que eu, sinceramente, sinto muito pela sua dor e por tudo o que você passou. Leia o livro completo da autora, ele pode te ajudar.

Saiba que a terapia também pode trazer transformações significativas para sua vida.

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Referências bibliográficas:
Filhos Adultos de Pais Emocionalmente Imaturos: Como se curar de pais que rejeitam ou que são distantes e egoístas – Dr Lyndsay Gibson
https://courageouslyu.com/lindsay-gibson/ Acessado em 13/07/2022 às 23:44
https://www.tidewaterfamily.com/parent-tips/author/2769-lindsaygibson#:~:text=Lindsay%20Gibson%2C%20Psy.,You%20Were%20Meant%20To%20Be Acessado em 14/07/2022 às 00:02
https://welldoing.org/article/10-signs-you-grew-emotionally-immature-parents  Acessado em 14/07/2022 às 00:16
Recovering from Emotionally Immature Parents: Practical Tools to Establish Boundaries and Reclaim Your Emotional Autonomy (English Edition) Lindsay C. Gybson
Self-Care for Adult Children of Emotionally Immature Parents: Honor Your Emotions, Nurture Your Self, and Live with Confidence (English Edition) Lindsay C. Gybson

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