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Sobre a dor da solidão e como lidar com ela

A solidão dói. A maioria de nós já experimentou isso. Eu, particularmente, experimento agora, enquanto escrevo esse texto. Hoje começo no blog uma série de 3 posts a respeito da solidão, com o intuito de trazer para você estratégias para te ajudar a aprender a lidar com ela, e até mesmo a aliviá-la. A solidão…

A solidão dói. A maioria de nós já experimentou isso. Eu, particularmente, experimento agora, enquanto escrevo esse texto.

Hoje começo no blog uma série de 3 posts a respeito da solidão, com o intuito de trazer para você estratégias para te ajudar a aprender a lidar com ela, e até mesmo a aliviá-la.

A solidão contemporânea

A vida corrida tornou-se regra, e não exceção. Aparatos tecnológicos alcançaram a posição de gêneros de primeira necessidade, trazendo cada vez mais a falsa impressão de que permanecemos conectados a pessoas que não nos encontramos, muitas vezes a meses ou anos.

Para que um vínculo de intimidade aconteça e se aprofunde, é necessário que ambas as partes compartilhem vulnerabilidades, o que acontece somente quando dedicam tempo para se conhecerem. Se olharmos com cuidado para o nosso dia a dia, há grande chance de percebermos que momentos de troca real, íntima e genuína, sem interrupção, com verdadeira conexão entre corpos e mentes, vem se tornando cada vez mais raros.

A solidão se manteve onipresente através dos tempos. No entanto, a forma de organização social atual favoreceu o aumento de relatos desse sentimento, bem como o tempo de permanência dele e a profundidade na qual se manifesta. Estudos sociológicos americanos corroboram com essa percepção, demonstrando que a desconexão parece estar aumentando. Constatou-se que uma em cada quatro pessoas, ou 25% dos entrevistados, relatam não ter ninguém com quem conversar sobre questões pessoais.

A solidão também é o principal motivo citado para a busca de terapia, e outro estudo sugere que ela é um fator de risco para a mortalidade. O impacto dos vínculos sociais na saúde mental e física tornou-se explícito e inquestionável com a chegada da pandemia e do distanciamento social compulsório.

A dimensão desse impacto fica evidente quando pedimos às pessoas que citem uma única atividade que lhes traz maior satisfação. A resposta mais frequentemente obtida é passar tempo com amigos e entes queridos, pessoas com quem se tem laços.

Solidão e dor

A dor da solidão já não pode mais ser considerada como subjetiva. A neurociência documentou dados que correlacionam a solidão à dor física. Evidências mostraram que sentimentos de ostracismo ativam as regiões neurais relacionadas à dor física. (Eisenberger, 2012).

Considerando-se que a dor é um mecanismo de defesa, na medida que alerta o organismo a respeito de algo que possa estar ameaçando sua integridade, pode-se inferir que a solidão é percebida pelo corpo humano como uma ameaça à sobrevivência.

A verdade é que, sob alguma perspectiva, estamos todos fundamentalmente sozinhos. Viemos ao mundo sozinhos, e assim também o deixamos. Somos entidades independentes, com pensamentos, sentimentos e emoções particulares. Somos ímpares, e essa singularidade inviabiliza ao outro a experimentação ou percepção de um mesmo acontecimento exatamente como nós o fazemos.

Paradoxalmente, estamos interconectados, não importa quão poucos sejam nossos amigos, ou com quantas pessoas mantemos contato regular.
Parafraseando Boff em seu livro Saber Cuidar, independentemente das nossas crenças ou desejos, há um elo maior de interligação entre o todo. Esse todo orgânico único, diverso e sempre includente, é constituído por todos os seres vivos, que estão interligados.

O progresso humano, historicamente, acontece quando nos organizamos em comunidades, estabelecendo relacionamentos dinâmicos, nos quais podemos dar e receber. Econômica e socialmente estamos conectados através da intrincada teia de relações que nos proporcionam bens necessários à sobrevivência.

A conexão é literal quando pensamos a respeito do ar que respiramos, do solo que pisamos, da ecosfera que compartilhamos. Estamos sozinhos e profundamente conectados.

Distração e fuga

A distração como opção de fuga é onipresente na sociedade atual, diante de tantas opções de lazer virtuais. A maioria de nós aprendeu a se distrair no exato momento em que sentimos uma emoção desconfortável, como a solidão.

Há opções “saudáveis” de distração, como por exemplo ler, fazer exercícios ou trabalhar; e outras “pouco saudáveis”, como comer demais, consumir bebida alcoólica em maior quantidade e/ou frequência, ou assistir a horas de televisão.

Embora ofereçam alívio temporário, elas apenas camuflam o desconforto, e tiram de você a oportunidade de lidar com a solidão. As distrações, geralmente, trazem consigo outros problemas, como ganho de peso, abuso de álcool, exaustão e esgotamento.

Veja como as crianças costumam lidar com seus sentimentos. Ao observá-las, percebemos que elas dão vazão às emoções com naturalidade. É claro que isso se deve, em parte, à imaturidade emocional inerente à pouca idade.

No entanto, essa forma de lidar com os sentimentos é também o principal motivo de elas superarem situações negativas com maior rapidez, passando para o próximo capítulo como se nada houvesse ocorrido.

Já os adultos, na tentativa de calar e controlar suas emoções, acabam carregando-as consigo por anos. Permitir que a emoção aflore, de forma respeitosa para consigo mesmo e para com o outro, dando-lhe toda a nossa atenção, pode ser a chave para se desvencilhar dela.

Venho aprendendo a lançar mão de estratégias para dar espaço para minha próprias emoções, incluindo a solidão. Hoje, na posição de alguém que compartilha dessa dor com você, deixo quatro sugestões que podem te ajudar a lidar com a solidão e a construir resiliência.

1. Permita-se expressar a emoção

Isso pode ser especialmente difícil se você está acostumada a utilizar-se de distrações para ignorar seus sentimentos. Porém, deixar que a emoção venha à tona sem subterfúgios, se permitindo senti-la por completo, te ajudará a se restabelecer com maior rapidez. Coloque-se na posição de observadora, identificando os pensamentos e sensações que a emoção desencadeia. Se o choro vier, deixe-o fluir. Sinta o desconforto de forma consciente, tolerando a permanência momentânea nesse lugar.

2. Fique em silêncio

O silêncio pode ser difícil e até assustador para algumas pessoas. Nos acostumamos aos ruídos de fundo, seja de noticiários, podcasts, aulas ou até mesmo “ruídos brancos” tocando ao fundo, enquanto fazemos outras coisas, seja por bips, alertas, barulho do tráfego. Meia horinha sem estímulos audíveis trará grandes benefícios para você.

Se for difícil permanecer em silêncio, uma boa opção é fazer uma caminhada, ou natação, ou alguma outra atividade que te conduza ao silêncio e à introspecção. Cuide apenas para que a atividade não se torne uma distração.

O objetivo do silêncio é oferecer espaço para que você entre em contato consigo mesma, reconheça suas emoções e perceba o efeito delas em você. Portanto, é essencial escolher fazer algo que te permita ficar em silêncio de forma consciente, estando o mais presente possível com relação ao seu interior e ao que está ao seu redor.

3. Aprenda a praticar mindfulness

Mindfulness é a capacidade de desenvolver atenção plena e consciência na experiência presente, no momento presente, sem julgamento. Não se trata de atividade esotérica ou mística, mas de uma prática com evidências científicas de seus benefícios.

Defina um limite de tempo e não se levante até que o tempo acabe. Você pode começar com cinco minutos e, eventualmente, estender para 20 ou 30 minutos de cada vez. Durante a prática dê vazão às sensações, pensamentos e emoções que surgirem, sem tentar controlá-los ou mudá-los.

Coloque-se novamente na posição de observadora, olhando com gentileza para o que for surgindo. Se as emoções ficarem desconfortáveis, recrute sua força, sua tenacidade e paciência para perseverar no momento presente.

4. Pratique a respiração Consciente

Essa é mais uma forma de construir resiliência ao estresse, à ansiedade e a outras emoções desconfortáveis.

Perceba que as estratégias abordadas até aqui são maneiras diferentes para que você construa a habilidade e o hábito de estar 100% no momento presente, experimentando o que ele traz, seja positivo ou negativo. Sei que isso pode ser extremamente desafiador, e até parecer impossível para algumas pessoas.

Acredite, eu sei.

Já me senti assim, e às vezes ainda me sinto.

Nesses momentos busco me lembrar aprender a tolerar o desconforto, ou disciplinar minha mente a estar presente no agora, favorece que a emoção vá embora mais rapidamente, enquanto que, quando busco a distração, geralmente o sentimento desconfortável permanece comigo por mais tempo.


Se identificou com o texto? Te convido a ficar por aqui, pois vou seguir compartilhando estratégias para lidar com a solidão nos próximos posts. Saiba que a terapia também pode trazer transformações significativas para sua vida.


Se quiser conversar, me chame no whatsapp, tá?
Beijo grande, Rose

Texto originalmente publicado em meu antigo site em 2022

Referências bibliográficas

Eisenberger. N.I,The neural bases of social pain: Evidence for shared representations with physical pain, Psychosom Med. 2012 February ; 74(2): 126–135.
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https://repositorio.unip.br/wp-content/uploads/2021/05/10V38_n3_2020_p232a245.pdf

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